Reader Comments

Passeando de novo carro com a familia

by carlos nunes (2018-11-27)


Papai tem razão, é mais seguro falar no celular na estrada do que no acostamento, porque meu Vô Chico diz que é proibido falar no celular guiando, e no acostamento às vezes tem guardas e eles poderiam multar o papai. Papai ficou falando com Marquinhos, que é sócio dele na empresa e que toda hora liga para falar de várias coisas que não entendo direito. Depois de um tempo, Júlia, minha irmã, chamou o papai: – Pai, assim a gente vai chegar atrasado. A gente sempre acha que ela está dormindo, pois fica de olhos fechados e de ouvidos tampados pelos fones, mas não, ela está atenta e ela tem razão de falar em atraso porque meu pai guia bem mais devagar quando fala no celular, até mesmo com seu 4.4 turbo alto e preto, e já tinha gente buzinando atrás. Os seis carros, aqueles do truque do acostamento, passaram por nós, e até a carreta passou. – Ok, disse meu pai, pode dar um desconto ao cliente, esse é dos bons. Faça um desconto com o Tucson Hyundai 2019 Ele olhou para o relógio, disse que a empresa dele não lhe dá sossego, esticou o pescoço, acelerou, e minha mãe suspirou. Mas como não tinha mais acostamento livre, ele teve de reconquistar a pista da esquerda. Papai ultrapassou muitos carros – olé –, mas teve de diminuir a velocidade quando, na frente da gente, entrou um Fiat Uno, como o da mamãe, guiado por uma loira que ia muito devagar. Papai então colou na traseira do Fiat Uno e ficou piscando os faróis, mas a loira continuou tranquila na nossa frente. Papai tentou ir para a pista do meio, mas tinha tanta moto passando e buzinando que ele não conseguiu e teve que permanecer colado na traseira do carro da loira e farolando com novo Ford Fusion 2019, “Ô loira burra”, ele falou, e minha mãe disse que não se devia xingar as pessoas, sobretudo na frente das crianças. As crianças somos eu e minha irmã Júlia, mas a gente nem ligou para o que meu pai falou porque minha irmã é morena e eu não sou mulher. Papai tentou mais uma vez ultrapassar a loira pela direita (“é proibido”, disse a mamãe), mas não deu porque passou um motoqueiro que olhou para a gente e levantou um dedo para o céu e meu pai ficou mais um tempo colado na traseira da loira. Mas ele não desistiu e – olé – acabou indo para a pista do meio, daí para a pista da direita e daí para o acostamento, e então para a pista da direita novamente e muitos olés mais. Não vou contar todo o trajeto porque imagino que vocês já entenderam o jeito de meu pai guiar seu 4.4 turbo alto e preto.